sábado, 6 de abril de 2019

ERA UMA VEZ

por Inajá Martins de Almeida
“Era uma vez”, amanheci.

Saí dos contos infantis; adentrei minha envelhecência. A bagagem dos anos vividos proporcionou-me contato com a realidade que as histórias maquiam: - “e foram felizes para sempre”, como se o ser feliz imputasse condição sine-qua-non para a vida plena.

Hoje aos sessenta e nove anos me sinto jovem para ser velha, ao mesmo tempo em que a idade me condiciona a uma realidade que não condiz com o ser jovem. Posso então dizer que me sinto jovial na plenitude dos meus anos.

E a linha do tempo me faz retornar aos anos de leitora in potencial e ao letramento; aos livros, a pouca idade me conduzia. Nossa biblioteca, generosa em volumes, enlevava-me à paixão que se perpetuaria aos anos vindouros – eu os amava. Mesmo não tendo entendimento para seu conteúdo, suas capas me atraiam, suas gravuras me encantavam. Era o livro que me capturava o pensar que se transportava para um universo ainda distante do meu entender criança. 

Assim é que “era uma vez” uma menina que amava tanto os livros, que não pudera almejar profissão mais adequada do que a de Bibliotecária. Iniciava-se ali um comprometimento fiel entre os livros que se deixariam selecionar, analisar, classificar, catalogar, organizar, enfim... Escrever...

Todo esse processo crítico avançaria espaço e tempo a conduzir leitora aos próprios apontamentos: como separar leitura da escrita? Não condiz.

Sob minha ótica, o escrever, complementa-se à leitura; para o autor imaginar seu livro referenciado, recontado, indicado, transformado em outro texto, seja a consagração maior para sua inspiração e transpiração. Claro que não o plágio.

Assim é que “era uma vez” uma menina que amanhecera entre contos de fadas, que brincava de ser leitora e escritora, na lousa, com giz escrevia:

Entre livros nasci
Entre livros me criei
Entre livros me tornei.
Enquanto lia o livro
Lia-me, a mim, o livro.
Hoje não há como separar:
O livro sou eu!
Ademais
Bibliotecária por opção, paixão e convicção
Escritora por transpiração.


Assim ao imaginar o "foram felizes para sempre" em "era uma vez", pude me perceber ao sair das páginas do livro e adentrar meu próprio universo, nesta página virtual e tão real. 

terça-feira, 19 de março de 2019

ESCRITORA EU??? INAJÁ...

por Inajá Martins de Almeida

A aula dessa tarde fora tranquila e repleta de reflexões. 

Muitas vezes adentro o horário, compartilho conteúdo, mas o vazio me acompanha sala afora. Não fora o caso nessa tarde, em que numa palestra de um coaching Conrado Adolpho, desconhecido a mim, até então, trouxera linques fantásticos os quais me permitiram ir além do tema - A maior riqueza - nossa mente...

Sempre em mãos um caderno, uma caneta e a mente atenta às anotações - não diferente nessa  tarde, eis que algo salta quando a recompor, neste espaço,  impressões deixadas pelo autor do tema:

- "Como queremos ser lembrados? O que queremos contar? O que teremos para contar?"

A partir dessa mensagem, dentre outras tantas, instigo o diálogo. A princípio monólogo - eu apenas apontando tópicos a mim significativos. 

Silêncio profundo entre os jovens... Em mim um questionar: 

- Será que me ouvem? Será que absorveram a palestra? Será que permaneceu algum ponto? 

Silêncio ... Apenas silêncio.

Mas não me intimido. Continuo minha fala, até que, algo chama atenção quando trago em cena, minha própria adolescência, anseios, expectativas, dramas, choros, paixões incontidas, silêncios interiores...

Passo a vislumbrar dois universos - presente e passado se mesclam e se encontram em uníssono. Não sou mais a professora que multiplica anos aos anos daqueles que a sua frente silentes se encontram. Agora mesclo meus anos, aos anos deles e formamos um só bloco. 

Eu na minha envelhescência, eles na adolescência... 

O que nos diferencia? 

Percebo que apenas os anos de experiências acumuladas, as oportunidades, as decisões, as buscas, as conquistas, os sucessos e os fracassos, tornam obscuras a distância, que aos pouco se encurtam e se aclaram.

Podemos entender que os anseios, os desejos, os medos e até a época presente que compartilhamos,  não detém  diferença alguma. 

A partir desse momento passamos a dialogar num mesmo patamar, num mesmo nível, num mesmo diapasão. 

Os jovens podem se abrir ao ouvido que presta atenção ao ponto de tentar entender uma geração que,  há muitos, perdida...

Não vejo, esses jovens a minha frente, como uma geração "aborrescente", "perdida", muito embora, quantas vezes os tenho nessa mira, mas hoje, excepcionalmente hoje, pude expressar abertamente que ali há uma elite de  jovens que, embora de classe social vulnerável, estudam, trabalham, buscam se diferenciar. Jovens escolhidos. Adolescentes aprendizes que tem muito a dizer e se destacar no cenário pessoal, profissional e social...

E não percebemos o tempo passar e, se o relógio deixasse de registrar seu compasso, avançaríamos em diálogo.

A noite, em meu quarto de estudo encontro respostas às minhas indagações. 

Videos me encontram. Profissionais me falam na tela e passo a dialogar com autores vários. É quando Mauro esboça e eu registro que:

"a escrita nada mais é do que você conversar com o autor; é você estar sozinha com o autor... Estudar é um privilégio e que a leitura é para amadurecer, crescer e vivenciar... - é uma vida." 

Assim, sozinha comigo mesma, tendo como pano de fundo o computador e os vídeos a nós disponíveis, dialogo com o autor que há pouco conhecera e ele vai além em sua dissertação e vasto conhecimento acumulado em tão pouco tempo - Mauro é muito jovem ainda - quando apresenta e deixa em aberto um novo tópico "a beleza do estudo".

Aqui volto ao meu companheiro e rememoro suas máximas, quando dizia, escrevia e registrava que - "Estudo - és tudo".

Sim... Estudo és tudo. É agregar ser  ao ter do conhecimento adquirido.    

E acrescenta ainda o conferencista Mauro:

- "Quem lê e quem escreve, de uma certa forma convida ao estudo. O escritor que tem medo de estudar é um péssimo escritor. Que a escrita é um sacerdócio a qual a gente apresenta diante da eternidade do próprio ser", seguindo um gancho de Tomaz de Aquino.

A partir daí, pude me encontrar escritora. Pude me perceber que o estudo me acompanhou e me acompanha. Que não passo despercebidamente ante uma palestra, um livro, um contato pessoal, sem meu caderno de anotações ou, minha própria mente.

Assim é que, junto aos jovens sou a professora, aquela que professa transmitir conhecimento acumulado pelos anos. No meu quarto de estudo, sou a Inajá que entre livros nasci, entre livros me criei, entre livros me formei... Agora, busco entre livros me tornar.

E como quero ser reconhecida? Como quero ser lembrada? 

Além  de gritar em mim - "Filhas da História" - que o jornalista Lucas Neri nos agraciou, a mim e a prima Matilde, quando da edição do Álbum Histórico sobre as Bandas de Araras, autoria de meu pai Nelson Martins de Almeida, em co-autoria nossa, quero frisar que o livro agora sou eu, porque agora também sou uma ESCRITORA...

A tarde e a noite dessa segunda-feira 18 de março de 2018, o final de semana que o antecedeu entre novos encontros através de vídeos/aulas, puderam me levar ao encontro com novos personagens que permearam estas linhas e que me trouxeram, de uma forma responsável, respostas às minhas habilidades. Enredaram-me à responsabilidade.

Que a nossa moeda é o tempo que dedicamos ao nosso preparo.

Que a vida é como um trem em que na primeira estação muitos sobem e lotam seus vagões, mas que a cada estação, a cada parada quantos descem e se deixam permanecer nos locais, quer por necessidade, quer por acomodação, quer por falta de opção, quem sabe as razões...

O trem sempre me fora significativo, agora, nessa metáfora sigo minhas estações sem limite de parar... 


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links que me motivaram as linhas

https://www.youtube.com/watch?v=5YA8P9ZWNSM - "O ser escritor: lógicas da letra e do real da vida."

A escrita é sem dúvida a via mais direta que permite colocar em cena as fantasias humanas. Todavia, o trabalho realizado sobre a linguagem, introduz uma dimensão suplementar e reunificadora na construção desta fantasia inconsciente que opera tanto na cura terapêutica quanto na própria escrita criativa. A eficácia da operação que realiza a escrita reside em que a fantasia não se afaste tanto do conteúdo da mensagem e de seu ancoramento real com o concreto da vida, o que faz do escritor, aquele que por vocação, suplantar e aportar soluções aos impasses de seus desejos.


Se para o escritor a letra é equivalente a um sintoma clínico, cujo sujeito sofre seus efeitos até que seja restaurado pelo ato terapêutico, o ato de escrever poderá restaurar, pelo viés da letra, a substituição do sofrimento por bordeá-lo e assim separá-lo de seu próprio ser, que diante deste novo objeto manufaturado, poderá então afastar-se dele voluntariamente. Assim, a escrita pode conduzir ao melhor daquilo que se pode esperar do fim de um processo terapêutico.


Afim de comentar estas verdades unificadoras da alma humana, o escritor e editor de livros Sandro Bier convidou o psicanalista, professor e também escritor Mauro A. J. Muniz para uma conversa destas e outras temáticas que gravitam o ato de escrever e a literatura.





quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

ENTRE O TER E O SER

por Inajá Martins de Almeida

Quarta-feira cinzenta. Meados do mês de janeiro do ano que já transcorre em dias (16/01/2019). O café nesta manhã me fora propício ao me perceber em meus espaços. Não muito distante de mim as mudanças físicas me acompanharão. É janeiro de 2019. E, breve, o mês abrirá espaço ao fevereiro e a nova casa estará aberta a mim.

Nesse período de transição, permito-me visitar espaços vazios da nova casa que, embora os anos denunciem longevidade, a mim será feita novidade. Paredes que requerem pintura, jardim que clama cuidado feminino, toque de mulher. Toques que produzirão efeitos modernos aos anos que guardam consigo memórias inestimáveis dos que ali habitaram. Agora, a mim compete preencher de vida os espaços que se tornaram vazios pela ausência deixada.  

Passeio pelos espaços repletos de lembranças, nesta casa que, aos poucos vai se tornando memória. Durante esses últimos nove anos, agregaram nosso ser ao ter que acumulamos - as que já carregava comigo, as que juntamos a dois. Ainda posso transitar em dois momentos - o presente que me é concreto e o futuro que aos poucos planejo - torno plano o que a vista alcança e refaço planos...



Móveis que o tempo envelheceu ganharam novidade em cor na mão do artesão. 

Estantes que se tornaram acanhadas, em si abrigam fragmentos de conversas, de estudo, de reflexão diária entre diálogos intermináveis e produtivos - falta me fazem os tais e quantas vezes me encontro a dialogar comigo, em voz alta até. 

Estantes que, recheadas de ser, agregam inestimável valor afetivo, sentimental. Ao ter, o ser fora agregado, impregnando-se em cada livro. Suas linhas transbordam em ser e me são companhia constante - nossos livros. 

Plantas me rodeiam e trazem consigo a natureza mutável. Muitas deixaram de existir em nossos espaços. Outras tantas se multiplicaram e resistem às intempéries da natureza.

Não sei se fora o café com leite,  saboreado a só nesta manhã cinzenta, tendo apenas por companhia meus pensamentos que jamais se apartam de mim, ou fora a própria mente que pode correr solta e livre entre o ter dos espaços ocupados ao ser dos espaços que são criados, que me levaram, frenética, às linhas. Quiçá, a pouca noite de sono, quando o envolvimento entre os textos me mantiveram atenta a este espaço, o qual me é reservado a disseminar minhas divagações nas linhas virtuais cibernéticas.   

Há pouco o filósofo japonês Ichiro Kishimi  dizia-me, no silêncio das paredes do meu quarto, da simplicidade do mundo.

"A coragem de não agradar" permanece em minha cabeceira de cama e em minha mente diária. Presente da prima Matilde, em poucos dias percorri suas linhas, abstraí ensinamento e retomo sua leitura, agora sob um olhar mais subjetivo do que o fizera quando da primeira. 

Sim! Quanto a releitura pode nos apontar vistas além do ponto, abrir portas, mostrar horizontes encobertos.



Retornei, então,  ao meu interior -  não me posso permitir sequestros de mim. Esse retorno que se faz cada dia mais necessário aos anos vindouros. Sentir e experienciar o silêncio, condição premente. Encontrar, reencontrar, transformar, reinventar o ser que me tornou o que sou, mas que pode ser melhorado a cada passo em busca do sentir maior que se nos apresenta a frente - nosso sentido de vida, para a vida.

E me coloco em mudança que, embora física, já consegue mexer o intelectual, sentimental, emocional e verbal.

Mudanças que me permitem esvaziar espaços com o ter, para que o ser possa fluir leve e livremente, pois entendi que o ter nos aprisiona, enquanto o ser nos liberta. O ter nos torna cativos de espaços que requerem por mais espaços  - cobram de nós alto custo quer em espécie física quer no emocional. O ser nos cobra pouco e nos liberta. Não requer espaço, pois nos acompanha a todos e em todos os espaços.

E, se hoje me permito mudanças é porque as possibilidades me fazem olhar sob a ótica do querer mudar, porque, como deixou registrado em seus diários, aquele que me fora tão diário 


- "mudança a única coisa que permanece" - 

Permito-me, assim,  essa mudança constante, para que o ter não se sobreponha ao ser que me busca permanentemente.


quarta-feira, 31 de outubro de 2018

CASA DO POETA RIBEIRÃO PRETO - 03 de novembro 2018

por Inajá Martins de Almeida

Foi uma tarde emocionante. Entreguei o poema para Maris, depois de um longo abraço. Envolvimento literário que marcará o instante, através desta postagem. Minha sobrinha neta Ana Clara esteve ao meu lado, compactuando alegria. 

 Ana Clara, Inajá e Maris


 encontro feliz


Inajá se emocionava ao ler o poema que dedica a Maris, por ocasião do encontro entre poetas e escritores de Ribeirão Preto


Não há como deixar de agradecer e se emocionar com tão grata receptividade.




Sorriso contagiante... Não há como deixar de expressar tanto carinho recebido... Tanto carinho trocado.




quarta-feira, 17 de outubro de 2018

DAS COISAS QUE O ESCRITOR PRECISA

Quantas surpresas nos proporcionam as tais mudanças. Gavetas abertas. Caixas fechadas a guardarem lembranças, as mais significativas. Papéis amarelecidos pelo tempo, não tão longínquo - este datado de 28 de setembro de 2011 - encontrou-me.

Ao revisitá-lo, a saudade apertou o peito e retomei o tempo em que a troca de mensagens entre amigas - escritora abalizada Rita Elisa, de outro a aprendiz que engatinhava seus primeiros passos disseminados pela internet. Ainda os faço. O texto em papel não se atreveu a tal, muito embora o "Álbum das Bandas de Araras"  seja uma realidade. Autoria do pai Nelson Martins de Almeida, teve sua editoração, trabalho de pesquisa pelas primas Inajá e Matilde. 

Assim fora que, neste momento de confronto entre o mais e menos, deparo-me com as palavras da amiga Rita Elisa e retomo meus textos engavetados...  

"Preciso de menos, menos, menos, os mais me custam a visão, a intelectualidade é fator preponderante de menos, menos, menos. Quanto menos temos mais espaço haverá para armazenarmos nossas conquistas". Rita Elisa Seda 

continue em


https://palavrasdeseda.blogspot.com/2011/09/homenagem-escritora-eugenia-sereno.html


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DAS COISAS QUE O ESCRITOR PRECISA
Por Inajá Martins de Almeida



Sim...
 Precisamos de tão poucas coisas
Mas de importância vital para o escritor:


Um lápis,
Um papel em branco,
Uma noite de insônia,
Uma boa inspiração
Que se mova à transpiração. 

Puxa... Pensando bem,
Até que não é tão pouco assim.


Mas... acima de tudo:

Precisamos desse amor sincero,
Dessa paixão intensa pelas linhas.

Precisamos de um encontro sereno,
Macio do negro grafite
A deslizar no papel em branco.

Precisamos dessa magia não sei o quê
Que nos envolve num emaranhado de letras
Numa noite em que o sono não nos vem
Ou numa tarde de sol intenso.

Precisamos de leitores cientes,
Que possam apreciar a obra do escritor.
Que saibam manifestar senso critico
Sob um ponto de vista ótico
Ante a magnitude do texto
E que ainda mais
Acrescentem textos aos textos
Linhas às linhas
Saibam o significado real das entrelinhas:
Leitores que possam se tornar co-autores.

Precisamos de amigos sinceros, leais,
Ainda que distantes nos queiram bem. 
Amigos que ao nos encontrar nos olhem nos olhos,
Gargalhem por dentro e por fora,
Apertem-nos ao peito, bem apertado,
Nada nos cobrem, apenas possam sentir
O pulsar dos corações.
Amigos que possam nos ler, a nós
Antes mesmo do próprio texto.

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Rita Elisa Seda, minha tão querida escritora e amiga, foram tuas palavras que me inspiraram, não numa noite de insônia, mas enquanto lia e relia o texto nesta tarde ensolarada de São Carlos. Obrigada pela magia das palavras, mas, acima de tudo, perdoe-me pela pretensão dos versos. - 28/9/2011

terça-feira, 16 de outubro de 2018

MOMENTO DE REVISITAR ESPAÇOS EM NÓS


Reflexão por Inajá Martins de Almeida
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Leitura sempre me é instigante. Nesta manhã (16/10/2018) o encontro com Claudia Nina, em seu texto na Revista Seleções de dezembro 2015 - "Diários secretos ou nem tanto" - levou-me a reflexionar sobre meus apontamentos e grifos em livros, em cadernos, os quais podem deixar pegadas e pistas - tanto  as externas quanto as internas. Daí a necessidade de perceber o momento em que me vejo confrontada com a realidade que não estava registrada em meu projeto presente e futuro. Pelo menos num futuro tão próximo. Eis que passo a discorrer, sob inspiração, tanto da autora - Claudia, quanto da presente em mim, a impressão que me deixara os espaços, os quais passo a revisitar e revisar. 
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De tempo em tempo gosto de retomar as organizações dentro de minha casa. Geralmente elas me motivam pouco antes do término do ano, momento em que revejo minhas plantas – algumas se recompõem em novos vasos; o pequeno canteiro é remodelado. A área se torna verde, transforma-se em luzes natalina.

Este ano meu natal terá um colorido adverso ao que pensara – meu companheiro partiu, deixando-me o mesmo sentimento de vazio que há anos sentira, quando do distanciamento de minha mãe, próximo aos festejos natalinos. Se um é recente, outro já se conta em quatorze anos.

Entretanto, partidas podem nos levar a rever nossos momentos compartilhados e acumulados – roupas, livros, móveis, objetos pessoais, tantos mais... Será que tudo poderá permanecer como antes, ou terá de encontrar nova maneira de ser e ter?

Não me quedei a pensar por muito tempo. O vazio deixado fora maior do que a organização que se fizera se fez e se faz necessária. O armário compartilhado fora o mais rápido e fácil de ser desmembrado – roupas separadas logo encontraram novos corpos, distante de minha vista.

O quarto me fora o espaço primeiro a quedar meu jeito de ser e ter. Armário todo formatado, as cabeceiras de cama ornadas com flores e abajur, ao invés de livros. A colcha colorida, recentemente escolhida e comprada a dois, os travesseiros a mostra. Tudo ao meu gosto pessoal – toque de mulher que agora terá de se acostumar ao viver só... Livros na sala, nas estantes.

Nossos livros, nossas leituras diárias, entretanto, não me distanciaram – jamais poderão me distanciar da bibliotecária que sou – e a eles me lancei de forma a mais cuidadosa e harmoniosa possível.

Nossos livros contam a trajetória de uma década. Nosso primeiro encontro. Nossa primeira Feira do Livro em Ribeirão 2008 – outras vieram. Nossas visitas a livrarias, sebos, cafés. Nossos livros a mão, em nossa cabeceira de cama, em nossos estudos constantes. Nossos livros editados – um (o seu 2009) pequeno ensaio Reflexões Definitivas; o meu e da prima Matilde – Álbum das Bandas de Araras (autoria de Nelson Martins de Almeida – meu pai 2017).

Nossos livros... Um a um minuciosamente passam por minhas mãos. Registrados, individualizam-se nas estantes.



E relembro tua primeira pintura a mim dedicada - nós a batizamos de Livros sobre a Mesa. E eles falam muito de nós. O chinelinho sob a mesa,  a bolsa no chão, a janela aberta ao horizonte que nos apresentava límpido, inteirinho a nós. O vaso de flores, enorme, como enorme era nossa expectativa ao porvir que nos apresentava o momento. Um pequeno retalho de madeira não se intimidou a receber a obra do pintor em sua simplicidade. Agora só permaneceu a imagem. A madeira envelhecida corroeu a pintura e se perdeu entre tantos outros  momentos pelo caminho.  

Folheio alguns – terão tempo para me levarem aos apontamentos, aos grifos e sigo em frente. O tempo não me é cansativo. Agrada-me as estantes repletas de títulos e autores – lidos, relidos e que consigo guardam memórias escondidas...

Eis que, nesta manhã em que o tempo prenuncia chuva, o ar fresco matinal me encontra a revisitar as revistas, que por último permaneceram, e a buscar assuntos que me foram tão significativos em cada leitura. E estanco. O título me fala – “Diários secretos ou nem tanto”... Epa! Sua autora, em especial, encontrou-me em afinidade tal que sempre a busco entre as folhas das Seleções – acostumada a encontrá-las desde a infância, quando meu pai as tinha encadernadas (hoje já não as tenho mais... mudanças várias não nos permitiram levar conosco tantos livros, tantos móveis, tantos ... ), porém, Élvio as comprava casualmente.

Interessante! Noto as mudanças: umas de lugar e local, outras dentro do mesmo espaço e percebo necessário se faz o distanciamento de tantas coisas que ousamos pensar essenciais, mas que, por algum motivo ou razão, deixou de ter significado para o que se apresenta no momento e para o futuro. As revistas, belamente encadernadas, distanciaram-se de mim. Hoje  poucos exemplares os guardo.

Percebo nitidamente o momento de rever os espaços em nós...

Abro armários de cozinha. Caixas se avolumam. Sua função tornara-se desnecessária e são descartadas. – quantas. No que me compete a artesania, linhas esparsas em cantos e caixas vários podem e devem ser agrupadas, e são. Na gaveta de armário, pode-se ver e ter o material útil para novos trabalhos artesanais.  

Móveis velhos abrem espaço ao novo. Sapatos, roupas, renovam-se no armário que se enxugou. Apenas o básico, necessário. Nada de acúmulo. Nada de sentimento de posse, de saudade.

Eis que uma revisão geral se tornou presente. Fora necessário. Aquele que me era tão presente, ausente se fez aos espaços que compartilhávamos a dois. Tornaram-se imensos os compartimentos.

Mas, realmente são nos livros que encontro meus espaços mais significativos. Neles as lembranças saltam em linhas minhas memórias, as quais gradativamente serão revisitadas e transformadas em novas linhas.

Se as linhas, aconchegadas na gaveta de armário, podem conter pontos, quantos contos poderão conter meus apontamentos nas estantes acumulados.   

E se nesta manhã Claudia Nina, em seu artigo de dezembro de 2015, novamente me levou às linhas, esse encontro solitário e silencioso, razão da entrega frenética a sua leitura, valeu-me a imaginar meus próprios apontamentos e um desejo imenso de poder a eles retomar constantemente e me perceber em seus grifos – nos que apontei, nas datas que delimitaram o tempo. Quiçá, a possível releitura, me levará ao encontro de novos espaços em mim, o qual me passara despercebido.

E para finalizar minha reflexão nesta manhã em que o sol se apresenta tímido,  tomo posse da frase de Élvio e que aprecio sobremodo:

-  “Mudança! A única coisa que permanece”. (Elanklever)

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

VOCÊ É FELIZ NO SEU TRABALHO? John P.Strelecky

por Inajá Martins de Almeida

Desde o último dia 15 de setembro de 2018, minha existência não se comporta a mesma. Posso dizer - "o que eu temia me sobreveio..." sim Jó... mais uma perda, mais uma partida, mais uma referência presente que se vai - Élvio.

Nosso último olhar, lágrima a um canto vez ou outra deixou cair. Em meu coração a esperança do "confia" que há pouco ouvira da médica. Mas ali, aquele olhar que me seguia, que se quedava naquele leito branco de UTI, gritava em seu interior um adeus... Jamais o alcançaria... Agora a viagem seria só, como todos nós em algum momento de nossas vidas. Conheceria a Ditosa Cidade, que tanto aspirava e aspiro. Não julgara tão breve assim. Entretanto, os projetos os terei de continuar só, como tantas vezes avancei.

É uma manhã de sábado, quase adentrando o meio dia. Na rodoviária busco o local que mais nos envolvia - a revistaria de Alessandro.

Eis que, entre conversas o expositor giratório desliza em minhas mãos. Algum título está a me buscar, não demoro em encontrá-lo: "VOCÊ ESTÁ FELIZ NO SEU TRABALHO?" - John P.Strelecky 

Bom! Dizer fielmente : - não... Porém, alguns pontos me são relevantes e, antes de pensar em mim somente, imagino que a porta que Deus abre só ele, a seu momento, irá fechar... Assim procuro encontrar objetivos, propósitos e, principalmente aprendizado em cada situação, tanto as que me agradam quanto as que me são adversas... E sigo.

em construção