segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

O OLHAR DE BORGES - múltiplos homens

O olhar de Borges: uma biografia sentimental
      Solange Fernández Ordóñez. Editora Autêntica, Belo Horizonte. 2009. 

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MÚLTIPLOS HOMENS


Segunda-feira em São Carlos. 2 de novembro de 2015. Amanheceu chuvoso. Os pássaros cantam o tempo. Eu retomo a Borges.  A leitura e seu olhar instigam-me. É o livro que me atrai. As folhas amareladas, a escrita medida da autora. O zelo, o cuidado para com as lembranças. O sentimento que não se pode perder.

Quisera poder expressar sobre lembranças da minha infância. Meu pai – homem de múltiplos homens.
“Dentro de cada homem habitam múltiplos homens e que cada um, além de ser único, é, ou pode ser, muitos outros”. (pág. 70)


E vejo meu pai a sempre envolto às letras: a pesquisar, a ler, a escrever, a transcrever. E sinto saudade. As vezes, essa tal saudade nos vem tardiamente.

O OLHAR DE BORGES - montando meu próprio livro



O olhar de Borges: uma biografia sentimental
      Solange Fernández Ordóñez. Editora Autêntica, Belo Horizonte. 2009. 

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MONTANDO MEU PRÓPRIO LIVRO


Sexta-feira. 30 de outubro de 2015. Aproprio-me do livro. Enquanto escrevo, o olhar atento de Borges segue-me. Frio. Vago a mirar o infinito mal pode imaginar o sentimento que minh'ama queda. 

As mãos ligeiramente apoiadas sobre sua bengala, concede-lhe a autoridade só permissível aos anos vividos. Jornada empreendida por poucos. É o olhar de Borges sob a biografia sentimental de Solange que me fita, através da capa do livro que o tenho em mãos.

E é assim que a imagem salta da capa negra e vem enredar meu pensar. Sob meu olhar repousa os olhos embaçados de Borges e me levam às palavras. 

Aposso-me delas. Revivo textos em meu viver. Em Borges encontro similaridade da casa paterna. Os livros. A biblioteca que meu pai formava. As estantes na sala, sempre bem cuidada, depositárias de grandes vultos...

"Nessa biblioteca do passado... minha infância transcorreu...
e eu nunca saí dessa biblioteca." (pág.21)  

Homem de letras - meu pai - conseguiu legar-me o gosto aos livros. O prazer, o entendimento, as reflexões das leituras. O propósito que se deve impor ao ato de ler. Mais ainda, escrever.

Construía aos poucos, sem o poder imaginar,  minha profissão. Criança ainda, atraia-me organizar a biblioteca. As estantes chamavam-se atenção especial. A curiosidade levava-me a desenvolver um método em que se pudessem agrupar os assuntos e, sem que houvesse quem me direcionasse a tal, a meu jeito desorganizava o acervo para depois poder organizá-los novamente, sob os protestos de minha mãe que dizia: 

- Seu pai vai ficar furioso com a nova ordem.


Eu me sentia tranquila e lhe mostrava o feito com alarde e satisfação. Tudo ficava a contento.

Eram assim os livros de meu pai que me chamavam. Não diferente dos novelos de linha de minha mãe que rodopiavam em minhas mãos entre agulhas. 

Aos poucos, 
enquanto lia os livros,  
eram os livros que insistiam em me ler. 

Na medida em que tecia os novelos de linha, 
eram as linhas que me enredavam em tramas tecidas. 

Assim eu me via a escrever nas linhas
as linhas que nos livros lia!


(A foto registra um momento, bem mais atual, em que meu gatinho Gere observa curioso a bagunça que se faz antes que a ordem encontre seu método).

Na estante desfilavam autores. Meu pai lá estava também. Álbuns volumosos retratavam heroicos feitos de homens bravios.

Álbum de Araras. Álbum de Araraquara. Álbum de Rio Claro, cidade que me vira nascer. Presente que me fora legado - minha herança maior pudera meu pai me presentear.

Ah! Solange. Foram seus "mosaicos" que me levaram a rascunhar meu próprio livro (pág.17)

Se Borges tanto pudera lhe inspirar, porque não meu pai trazer-me à memória a riqueza de sua própria vida sempre entre livros, fatos e vultos históricos?

Assim imaginando, serviu-me de motivo esta agenda. Ultrapassada pelo tempo será agora depositária de minhas mais gratas lembranças. (1*)

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(1*) Em 30 de outubro de 2015 adquiri uma agenda de 2014 a um preço muito convidativo. A capa inspirou-me a escrita. As linhas verdes, delicadas propuseram-me o registro das minhas mais significativas impressões mas, para que as informações nela depositadas perpetuassem, o blog seria o veículo especial. Eis porque aqui o tempo irá contar essas memórias que, sob O olhar de Borges um marco se abre no horizonte das letras e das linhas. O livro tem me inspirado por demais devido a semelhança com que o autor retrata sua vida. A linguagem de Solange atreveu-me os rabiscos. Agradeço a ambos. Assim como também a facilidade e preço com que o volumoso livro pode chegar às minhas mãos. Também ao zelo da R&R Livraria - São Carlos (Rodoviária) que cuidadosa na exposição das estantes, nas escolhas dos livros. Tudo moldado para chamar atenção desta leitora.    
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E Solange dá sinais em sua visão de Borges:

"Imaginei-o desse modo para que cada leitor possa ir montando seu próprio livro, do mesmo modo que, quando conhecemos alguém, nos inteiramos de sua vida, de forma confusa e desordenada e não lhe pedimos sua ficha autobiográfica". (pág.17)

Quantas vezes pedi ao meu pai fizesse-me sua autobiografia, ao que me dizia não ter nada de interessante a registrar.

Agora, entretanto, compete a mim esclarecer não ser verdade. Sua vida fora riquíssima de significados tais que, a mim, importo o registro para que não se perca no tempo do esquecimento, o mesmo que a mim fora cometido durante todos esses anos em que as atribuições da lida, não me ocasionaram parar e atentar aos registros tão necessários aos que estão caminhando. 

Ademais, posso eu apropriar-me das palavras e aqui tornar a registrar:

"Quem me dera fossem minhas palavras escritas,
que fossem gravadas num livro,
com pena de ferro e com chumbo,
para sempre fosse esculpidas na rocha!" Jó 19:23-24


De meu pai, a "herança paterna", torna-se gosto e prazer - leitura que agora se pode desenhar, escrever. Dos livros a pena salta e  ensaia passos curtos, largos, generosos a deslizar o papel com suas linhas delicadas. Aos poucos a tecnologia compactua o feito.

Meus pais já não se encontram em nosso convívio. Como querubins partiram. Mas, suas lembranças tornam-se desejosas pelos registros. A saudade pelo tempo da ausência, torna presente a presença que fora por longos anos. A mãe 77 anos. O pai 94 anos. (2*)

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(2*) O caderno de anotações registrou esses tópicos. Seis páginas escritas a mão que aos poucos irá compor meu próprio livro. Sexta-feira, manhã do dia 30/10/2015.
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LER COM PROPÓSITO - O PROPÓSITO

por Inajá Martins de Almeida

Estamos no final do ano de 2015. Incrível acreditar, mas há pouco fazíamos planos para a virada do século e, percebam bem, já lá se vão quinze anos.

Em família estávamos - filho, pai, mãe e eu. Éramos os quatro na sala do apartamento, quando nos abraçávamos e comemorávamos a virada do século. Agora, século XXI, aguardávamos com paciência  e grande expectativa as realizações vindouras.

Computamos as horas. Contamos os dias. Ansiamos por  realizações em 365 dias disponíveis. Assim, passamos dias, meses, anos, séculos, milênios... e percebemos que tudo caminha. Não há como parar o relógio que o homem para si criou.

Eis que nesses quinze anos, parte minha mãe em 2004. O filho gradua-se Musicoterapeuta em 2005. Casa-se, com a também Musicoterapeuta, em 2006. Eu encontro, em 2007, aquele que viria ser meu companheiro de horas inesquecíveis - Élvio. Nasce minha neta Rafaela em 2008. Em 2010 iniciamos junto à RASC, projeto adolescentes aprendizes, dando a monitoria semanal. Ponte entre São Carlos, Araraquara e Limeira.   Meu pai falece em 2012. Em 2013 retomamos, Matilde e eu a confecção do Álbum das Bandas de Araras.

Acontecimentos esses mais marcantes e significativos para mim.  

É o propósito que se impõe às leituras. É o ato de ler com propósito que se engaja na dança das horas. No tempo que insiste em contar o tempo.

Breve leitura. Soma do conhecimento acumulado durante os anos de existência. E lá se vão 65, desde 1950.

Bom estar aqui. Pequeno refúgio numa tarde nublada e quente de São Carlos.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

MOMENTOS...

por Inajá Martins de Almeida



2015
Outro ano se inicia.
Novos sonhos.
Novas perspectivas.

Momentos...
Retalhos solitários
engavetados
aguardam!

O tempo? Quem poderá sabê-lo?

Quem poderá unir seus pontos?
Tecer encontros?
Dar sentido aos fios?

Eis que possível fora!

O entalhe na madeira
Retorna aos sonhos - o artesão!

A cúpula guarnece-se de retalhos amealhados.
O tempo passado insiste em adentrar o presente
e a presenteia.

Presente de encontros.
Sentidos nos fios, sentido. 

Quadros ornamentam paredes brancas
e as tecem.
Enebriantes brancas paredes.

Mãos que pintam. Retratam momentos
a se perpetuarem em molduras,
que se emolduram.
Lembranças nas telas deixadas,
a cada pincelada de cores ,
tornadas lembranças.

A colcha.
Retalho que se transforma
Recompõe o ambiente
Dá novo sentido ao que era.

Lembranças que passam...
Lembranças que ficam nos fios.
Permanecem lembranças.

Retalhos!
Sempre retalhos.

Em cada fio,
 tecem sentido momento...

Momentos, em sentido, tecem!
Memórias passadas...
Memórias vividas
vivenciadas
em cada retalho,
cantos
de cantos entoam
memórias que o tempo
insiste em recriar memórias passadas
em presente.

Eterno presente! 

   

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

QUEREM SEQUESTRAR A FILOSOFIA DE NÓS: cenas do cotidiano

por Inajá Martins de Almeida - 02/01/2015

Nada de novo o título nos mostra.Quantos sequestros todos os dias: Sonhos. Ideais. Realizações. Fracassos. Ganhos e perdas. A lista engorda. Mas, querer sequestrar a filosofia de nós - impossível!

Somos influenciados? Influenciamos?

Interessante a conjectura. Se somos influenciados por pessoas de grande influência, de grande visibilidade, isso pode ter um peso, quem sabe um valor maior aos olhos. Mas, e se o oposto ocorre, será que se pode ver com olhar diferenciado?

Assim, como seria a influência que exercemos, nós anônimos?

Percebemos então que quanto mais altas esferas, a visibilidade extrapola horizontes, quebra limites e atinge fronteiras inimagináveis. Porém, importa-se com isso os que detém a visibilidade a seu favor? Percebemos também que, muitas vezes, não?

Mas o que podemos pensar e dizer sobre influências no cotidiano? Pessoas comuns, anônimas que nos bastidores não se importam com o estrelato, ao menos com o anonimato, mas que exercem influência.

A doença brusca e cruel modifica o projeto de vida de uma jovem linda, modelo aos padrões da beleza em passarelas.

Cabelos longos, compostos, reluzentes ao brilho do sol, macios, cobiçosos a olhares, agora entregam-se às tesouras. Mãos hábeis dão início ao processo do corte. Antecedem a medicação química que não terá cuidados necessários na organização dos fios, que cairão e se espalharão ao léu.

É agora o pensar filosófico que dá encaminhando ao fato. O processo da poda. O aproveitamento. A utilização da colheita. O reaproveitamento dos fios, na confecção de uma peruca, dá início o processo de mudança.

Encontros inesperados. Busca por estimas quebradas. Os cabelos a representarem apenas os fios externos, ponta do iceberg que se esconde no interior ferido, magoado, alcançado pela cruel degeneração das células -  sorrateira a roubar da vida saudável a perspectiva  de realizações inesperadas.

Aí inicia-se o processo das intenções. A percepção do que se passa no cotidiano. Nas ruas. Nas casas. Quantas lágrimas. Quantas aspirações. Paredes a abrigarem sonhos.  Quantas rachadas, ansiando sutil reparos. 

Como é bom e gratificante os encontros. Resgatar temas para nosso cotidiano. Trazer a tona nosso olhar filosófico. Irmanar nossas experiências. Vivenciar o passado no presente.

Somos filósofos, quem sabe alguns, sem o saber. Quando nosso olhar caminha além das imagens. Além da informação.

Somos filósofos quando buscamos conhecer quem está por trás da informação.

Somos filósofos quando a fazer junção da informação e conhecimento e abstraímos a sabedoria para nosso próprio viver diário.

Somos filósofos quando percebemos que somos influenciados nas mesmas proporções em que também podemos influenciar.

Somos filósofos quando percebemos a sinceridade nas palavras da jovem em tratamento, ao se sentir "linda", ao perceber que em meio ao drama que vive, pode influenciar e influencia tantas outras pessoas como a si mesma.

Daí percebemos que querem sequestrar a filosofia de nós, porém:

"Não se pode pensar em nenhum homem que não seja também filósofo, 
que não pense, precisamente, porque o pensar é próprio do homem como tal". (1)


Nota: A inspiração para as palavras vieram-me através da Flávia Flores no Programa Hora do Faro - domingo 20/12/2014. Veja alguns links interessantes:



·                     http://entretenimento.r7.com/hora-do-faro/fotos/faro-promove-reencontro-entre-mae-e-filha-em-israel-23122014?foto=5#!/foto/5
·                     http://www.quimioterapiaebeleza.com.br/


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(1) GRAMSCI, Antonio - Obras escolhidas.  São Paulo: Martins Fontes, 1978, p. 45.  In: ARANHA, Maria Lúcia de Arruda e MARTINS, Maria Helena Pires.   Filosofando: introdução à filosofia.   São Paulo, Moderna, 4ª ed. 2009 - p.16. 


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terça-feira, 23 de dezembro de 2014

SOBRE "LADRÕES DE PALAVRAS" - Michel Schneider


Por Inajá Martins de Almeida

Há livros que falam por nós. Falam de nós. E, principalmente falam para nós. Escrevem-nos. Revelam-nos intimidades incontidas. Compartilham intimidades.

Ah! Suspira o leitor ao encontro. Ah! Suspira o livro ao leitor.

Ladrões” sorrateiros às “palavras(1) encontram eco. Bailam. Rodopiam no grande e infinito salão da mente.  “Leitor do outro(2). É quando sentimos a necessidade da escrita. Quando então o autor nos diz que “escrever é ocupar um lugar... dizer o que aconteceu”(2).

E queremos realmente dizer o que nos trouxe o encontro. O que nos levou ao encontro. O sonho que adentrou o sono. Sorrateiro. Fantástico. Pensamento que se fez consciente no inconsciente noturno. A sala de aula. O professor a indicar a leitura. A jovem partícipe da questão em detrimento aos ausentes, tantos, que não podem se perceber ao enunciado daquele que compactua o autor. Era o livro que, à cabeceira da cama não descansava. 

É o livro, agora, que se transforma em  “ladrões de palavras”(1) . Forma frases. Permite-se escrever “tantos outros livros, como se tivesse sido, pouco a pouco, tragado”(3).  

E pode-se voltar ao encontro não planejado. Não programado. E à reflexão, mente, alma e coração sentem mãos invisíveis que conduzem ao ensinamento maior, quando leitor silente observa, obedece à voz interior e aguarda a colheita.

A grande livraria, centro da cidade, abriga títulos incalculáveis. A promoção chama atenção para si. Ditames do saber incontido, passo a passo, observam os passos firmes do leitor in potencial, que sobe pequena escada de pedras mármore e adentra aquele santuário.

A mesa abriga títulos a se perderem na vista do leitor. Um, selecionado, é deixado à margem. Volumosas páginas a se contarem em quinhentas, chamam atenção. Parágrafos, palavras, vasta bibliografia não condizem com o valor ínfimo a que se propõe a oferta – a mente vem.

Há que se pensar então nas horas investidas à pesquisa. No tempo dedicado ao estudo à coleta de informações.  No autor até então desconhecido. É digno o preço? Mas vamos lá! Conjeturas a parte.   

Assim, leitora que acostumada fora a tantos títulos, tantas bibliotecas, agora se vê impasse ante aquele que começa a lhe tragar o sentir pleno e mágico da leitura. Percebe, leitora,  que “cada livro é o último e o primeiro”. (4).  Livro que lhe ofusca a mente em delírios frenéticos. Se primeiro fora, o impacto das gravuras trariam colorido às palavras. Porém, percebe-se o último ante as palavras que se avolumam, negras, quebrando o branco do papel.  

Volta-se às Leis da Biblioteconomia e encontra Ranganathan a lhe dizer que a cada leitor o seu livro e a cada livro o seu leitor. E percebe o zelo. O cuidado. O cuidar da bibliotecária que jamais pode se apartar dos ensinamentos primeiros. E a técnica que não se distancia da Técnica pode resgatar da memória habilidade adquirida no passado, na presente atitude.  

Fora então o encontro. E as páginas registram:

“O encontro do autor com “seu” leitor – quem pertence a quem – tem muito do encontro às cegas em que, cada um, crendo se interrogar sobre o outro, na verdade espera que este lhe diga sua própria identidade” (5)            

Mas, agora, de posse do livro, a noite de insônia saudável é a leitora que questiona:

 –Quantas vezes os livros nos bastam! Quantos autores podem nos escrever! Daí, o que  dizer dos livros interiores? Quem os poderia escrever? Quem os tais, sabedores do silêncio noturno poderia expressá-los?

O tic-tac do relógio que, compassado, segue ininterrupto seu ciclo diário? Horas infinitas de momentos em movimentos podem trazer à pena e ao papel a expressão de vistas ao ponto? Ou até, quem sabe, paredes brancas a observarem, mudas, frias, taciturnas, podem registrar o segredo daquele encontro.

Quem sabe? Quem o pode saber?

E entende – leitor – que ninguém senão ele próprio possa ser o protagonista das horas silentes de vigília. E fora o livro – o último – que lhe encaminhava às reflexões. Roubava-lhe o sentir leitor. Enveredava-o às palavras. Instigava-lhe o escritor latente ante as palavras que aos poucos se descobria. Centenas? Milhares? Palavras bem colocadas. Formatadas ao esmero do autor. Citações emprestadas. Composições articuladas, enfeitadas aos moldes literários impecável ao olhar atônito do leitor que encontra eco mediante palavras roubadas. Melhor ainda, não se ruborizam ao compactuar “ladrões de palavras”, tantos.

E segue leitor a leitura. Agora o livro. Mas, as estantes, em fileiras ordenadas, deixam para trás de si ecos de tantas outras leituras. Palavras a se perderem de vista. Livros que não se bastam. Livros que não nos bastam. “Livros... Livros... A mão cheia... Grita o poeta”. (6)

É a vista do leitor que encontra no ponto final do autor, na obra acabada, caminhos para compor a jornada que se abre, deixando acesso livre ao pensamento, que agora se apossa do leitor. Mundo das ideias a permear espaço e tempo. (7) Dimensão de que possível se torna escrever tantos pontos quantos forem os pontos que a vista possa alcançar.

É o ponto final da obra do autor que propicia a nova obra no leitor. “O leitor do outro”. (8)  E, como se pode sentir latente o desejo mórbido pela escrita, gavetas são revolvidas em busca dos papéis. Papéis de lembranças.

Papéis velhos, pontilhados de palavras. Papéis novos, pontilhados de esperança. Folhas em branco a representarem novos papeis. Retalhos amealhados. Retalhos de cetim. Retalhos de algodão. Retalhos de lã. Retalhos de seda. Retalhos de sede. Retalhos do escritor. Retalhos do leitor. E escrevemos, porque na escrita sentimos a liberdade que nos leva além das paredes. Liberdade que as palavras proporcionam leva-nos aos encontros.

E sentimos um quê de saudade. Um quê de alegria. Um quê de desejo pela obra que não é nossa, mas que tão bem pudera ser. Palavras que poderiam ser por nós escritas, porque tão bem nos escrevem. E nada de novo, porque tantos pensaram. Tantos pensam. Tantos escrevem. E lemos nos outros, o que os outros lêem em nós. Estranho. Quantos gostariam de escrever o que escrevemos. Quantos escrevem o que gostaríamos de escrever.

Tornamo-nos, assim, “sósias” (9) dos que escrevem. Discordantes de pontos de vista, não nos distancia da obra. Ao contrário propiciam criar pontes. É o livro que toma seu lugar. (9)

E rimos. E choramos. E o coração transborda ao encontro. E, ao invés de ficarmos “ressentidos"(9) pelo que o autor escrevera, sentimos uma alegria imensa por nos encontrarmos em suas linhas.
E “nas margens do livro”(10) escrevo para que eu mesma possa ler algum dia:

- Não podemos modificar a natureza da palavra, mas amoldá-la para que ela possa se amoldar à sua natureza: a natureza do escritor. Cada qual ao seu modo. Roubando. Tomando emprestado. Plagiando. “Ladrões de palavras”.



  1.      Ladrões de Palavras.   Michel Schneider”.  
  2.      Idem – pág. 404
  3.      Idem – pág. 139
  4.      Idem – pág. 10
  5.      Idem – pág. 15/16
  6.      Castro Alves (* - observação da autora do texto)
  7.      http://pt.wikipedia.org/wiki/Teoria_das_ideias (* observação da autora do texto)
  8.      Idem- pág 404
  9.      Idem pág 428
  10.     Idem pág. 481


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SCHNEIDER, Michel.  Ladrões de palavras: ensaio sobre o plágio, a psicanálise e o pensamento.   Michel Schneider;  Trad. Luiz Fernando P.n.Franco.   Campinas, Editora da Unicamp, 1990.  (Coleção Repertório) 

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sexta-feira, 20 de abril de 2012